Desde que fundei o Eufêmea, já perdi a conta de quantas vezes ouvi: “Ah, mas vocês cobram por isso?” ou “Achei que era um trabalho voluntário!”. Parece que o fato de sermos um portal de conteúdo feminino, que levanta pautas essenciais para as mulheres e promove discussões urgentes, automaticamente nos coloca no rótulo de ONG.
Mas por que isso acontece?
Não vejo essa percepção como uma falta de posicionamento, mas sim como reflexo de uma cultura que desvaloriza o trabalho das mulheres, especialmente quando ele está ligado a causas sociais, ao cuidado e ao fortalecimento de outras mulheres. Existe uma expectativa implícita de que mulheres trabalhem por amor, como se lutar por direitos ou informar outras mulheres fosse uma missão voluntária – e não um trabalho digno de reconhecimento (e pagamento).
Essa mentalidade não é um acaso. É o mesmo pensamento que faz com que mulheres recebam menos do que homens, mesmo exercendo as mesmas funções. A desigualdade salarial continua sendo uma realidade, sustentada pela ideia de que o trabalho feminino vale menos ou deve ser encarado como um complemento à renda familiar, e não como a principal fonte de sustento.
Além disso, profissões majoritariamente femininas, como ensino, jornalismo e assistência social, são frequentemente mal remuneradas e precarizadas. Áreas que exigem dedicação, conhecimento e impacto social significativo são vistas como extensões do cuidado e, por isso, muitas vezes pagam salários incompatíveis com a importância do trabalho realizado.
A expertise das mulheres também é constantemente questionada. Não importa o nível de qualificação, a experiência ou o histórico profissional, muitas mulheres sentem que precisam provar, repetidamente, que são competentes o suficiente para estar ali. Esse descrédito não apenas afeta a trajetória profissional, mas também impede que mais mulheres alcancem posições de liderança e reconhecimento.
O trabalho feminino não é um favor. É um trabalho.
E é por isso que reforço: nosso trabalho tem valor, e ele precisa ser sustentado para continuar existindo. O jornalismo independente voltado para mulheres não sobrevive apenas com engajamento e boas intenções – ele precisa de investimento, apoio e estrutura.
Se queremos mudar essa realidade, precisamos quebrar a lógica de que tudo o que envolve mulheres deve ser gratuito, desvalorizado ou feito por caridade. Informação tem custo. Produção de conteúdo tem custo. O trabalho de mulheres merece ser pago e reconhecido.
E não, a luta por um futuro mais justo para nós não deveria depender de trabalho não remunerado.