Foto: Rede Social
Ser “cabra macho” é uma grande vantagem. Ser macho. Não ser fêmea.
Vocês devem ter visto a reportagem da Agência Pública sobre um coach de masculinidades acusado de aplicar golpes financeiros em mulheres. O nome dele é Manoel Pinto, nordestino, alagoano. Criador do coletivo Ser Cabra Macho, fundador do Instituto Social de Cultura e Masculinidades (ISCM), facilitador de rodas de conversa e grupos reflexivos. Administrador por formação, palestrante e empreendedor social.
Na bio do TEDx Salvador, ele se apresenta como alguém que promove discussões sobre masculinidades, parentalidade, gênero, diversidade, sexualidade, corpos, raça e machismo. Afirma que o ISCM valoriza as riquezas do masculino e do feminino, respeitando as diversas possibilidades de ser.
O que me chamou a atenção não foi apenas o caso em si, mas o palco que ele teve. Foram inúmeras entrevistas, eventos importantes, encontros com celebridades, convites para podcasts. Um discurso bem articulado, uma boa lábia e, claro, oportunidades que muitas mulheres que falam sobre os mesmos temas raramente têm.
Vamos pensar na perspectiva do nosso estado, Alagoas. Quantas mulheres especialistas em gênero e raça conseguem o mesmo espaço e têm a oportunidade de sair de Alagoas para expandir seu trabalho?
Quantas pesquisadoras, ativistas e comunicadoras, que há anos denunciam as mesmas questões, foram chamadas para tantos holofotes?
Pelo contrário: a sensação é de apagamento. Estamos falando de mulheres sérias que de fato estudam, trabalham com isso e, mais do que isso, vivem o que pregam. Não era o caso de Manoel, segundo apontado pela reportagem.
Ainda assim, ele teve credibilidade, espaço e visibilidade. Enquanto isso, quantas mulheres que dedicaram anos a pesquisas, projetos sociais e discussões sobre gênero enfrentam dificuldades para serem ouvidas? Quantas precisam provar, incansavelmente, que suas vozes importam?
O que aconteceu com esse alagoano em questão não é um caso isolado. Não se enganem. Há um padrão que precisa ser quebrado e denunciado.
Desconfie desses homens que se vendem como ““feministas” e ganham palco para falar sobre desigualdade de gênero, enquanto tantas mulheres, que há anos pesquisam, militam e vivem essas questões, seguem invisibilizadas.
Eles são aplaudidos e reconhecidos como inovadores, enquanto as mulheres que falam sobre isso há tempos são ignoradas, desacreditadas e, muitas vezes, atacadas. O lugar de fala e de visibilidade deveria ser delas.
Após a reportagem, mais mulheres estão falando. Mulheres que passaram anos silenciadas, esperando que a Justiça fosse feita. Enquanto isso, ele brilhava mundo afora, enquanto os prejuízos emocionais e financeiros ficavam com elas. O palco precisa ser nosso.
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